Hoje tem Brasil x Japão em Dortmund então saímos logo cedo de Frankfurt rumo a Hagen, uma cidade próxima a Dortmund. Hagen é uma cidade de uns 200mil habitantes e fica há uns 20min de trem de Dortmund, se você pegar o trem mais rápido, e era lá que ficava o albergue da juventude.
Dentro do trem, na nossa cabine particular, constatei que eu não tinha pego o endereço do albergue, nem como chegar lá... como imaginei que nessa cidade seria difícil achar pessoas que falam inglês, isso seria um pequeno problema mas nada que umas palavras toscas em alemão não resolvessem. Porém, isso veio a se tornar um grande problema quando aconteceu a maior cagada da viagem, que vou contar a seguir.
Estávamos na cabine do trem, com nossas mochilas no bagageiro, relaxando felizes e contentes e trocando idéia com um holandês que sentou lá dentro. Antes de continuar, uma breve explicação sobre o esquema de paradas dos trens: existe um panfleto dentro das cabines chamado Reiseplan, é o plano de viagem. Esse panfleto mostra todo o trajeto do trem, as principais conexões das cidades que ele pára e o mais importante que é o horário de chegada e partida do trem. Pelo que vimos, o tempo em que o trem fica parado numa estação varia entre 2 e 3 minutos, e esse é o tempo que você tem pra sair do trem a partir do momento que ele chega senão suas portas fecham e você vai descer só na próxima parada (já estão imaginando a merda que aconteceu).
Então veio o anúncio que em poucos minutos estaríamos chegando na estação central de Hagen. Ainda éramos meninos em viagens de trem, então esperamos o trem realmente parar pra começar a pegar as malas (depois desse dia, nunca mais fizemos isso). Peguei minha mochila e saí do trem, fiquei esperando as duas mulas Véião e Faggi lá fora. Os segundos se passam e nada dos dois aparecerem. Aí eis que surgem em direção da porta mas dá o apito e a porta fecha. Aperto desesperadamente o botão pra abrir do lado de fora, e o Véião apertando do lado de dentro e nada da porta abrir. Não nos restou mais nada senão dar um tchauzinho de até logo e sentir, depois de 13 dias de viagem, que cagadas acontecem.
Bom, como administrar o problema? Eu estava na cidade certa, com o nome do albergue em mãos, sabia falar inglês e alemão e tinha um celular que funcionava. Ou seja, se eu estivesse viajando sozinho estava tudo ótimo. Era só descobrir como chegar no albergue, fazer o check in, me trocar e voltar pra estação pra pegar o trem rumo a Dortmund e ir pro jogo do Brasil. Os dois mulas não sabiam nem o nome do albergue, não falam alemão e não tem celular e estavam indo rumo a Dortmund, ou seja, pra eles voltarem pra Hagen ia demorar no mínimo 1 hora (30 pra chegar lá e 30 pra voltar, sem contar o intervalo que poderia ter até sair o próximo trem pra Hagen).
Chegando na estação, me surpreendi com o nível de organização da cidade. Tinha um quiosque oficial de informações da Copa dentro da estação, achei muito legal pra uma cidade pequena que nem tinha jogos. Depois, andando em mais cidades desse Estado (Nord-Rhein Westphalia) percebemos que tinha isso em todas as cidades, ao contrário dos outros Estados que havíamos passado.
Joguei na sorte e resolvi ir pro albergue. Fui no posto de informação, arranhei um alemão básico com o tiozinho do turismo (que estava de bermuda e chinelão e não falava inglês) e ele até imprimiu o itinerário do ônibus que eu tinha que pegar pra chegar lá, além de elogiar meu alemão (impressionante!!).
Depois de uma viagem de uns 20min de busão cheguei no albergue, me instalei no quarto (estava sozinho no quarto pra 4!), me preparei e voltei pra estação pra ir pro jogo. Chego na estação e já era hora do almoço, ou seja, hora de Bratwurst!! Tinha um trailer bem na frente da estação e resolvi comer lá. Por incrível que pareça o cara que vendia era brasileiro!!!! Aí fui pra estação, na esperança de encontrar os figuras na Fan Fest em Dortmund. Então pra minha surpresa eles foram mais espertos do que eu imaginava, e nós tivemos mais sorte do que imaginávamos porque logo que entrei na estação vi o Faggi! Aí eles me contaram o que aconteceu no trem: uma velha com um carrinho de mala emperrou no corredor e eles não conseguiram sair, aí foram até Dortmund e logo em seguida pegaram um trem pra voltar.
Como eu ia perder muito tempo se voltasse com eles pro albergue e como a sorte estava do nosso lado, deixei com eles o papel do busão e segui pra Dortmund. Combinamos vagamente (bem vagamente, já que ninguém conhecia a cidade) de nos encontrarmos na Fan Fest ou nos arredores do estádio. Cheguei na cidade e fui pra Fan Fest onde me encontrei com Maurício, Zadá e Mirela que também iam para o jogo. Seguimos pro estádio ainda sem ter a mínima idéia de como encontrar os caras mas tudo bem.
Chegando no estádio, uma grande
invasão de brasileiros e japoneses. Vários grupos de brasileiros se formaram com a tradicional rodinha de pagode/samba/qqer merda e a zona e a festa estavam formadas. Encontramos a galera de sempre lá, presente em todos os jogos, demos uma enrolada e fomos pro estádio. Esse jogo era só relax, porque o Brasil já estava classificado, então fui vestido inteiro de
Corinthians e acabamos vendo a melhor exibição brasileira na Copa.
Esse
estádio era um dos que eu mais queria conhecer. Ele é um dos estádios mais tradicionais da Alemanha e é chamado de Ópera do Futebol. Suas arquibancadas são praticamente 4 tobogãs do Pacaembu, bem vertical, e são bem perto do campo, o que dá um ambiente de caldeirão. Além disso, abriga uma das maiores e mais fanáticas torcidas da Alemanha: a do Borussia Dortmund.
O jogo em si foi bem tranquilo. O Brasil jogou com o mixtão e mesmo assim passeou, apesar de sair perdendo. Se não fosse o goleiro japonês teríamos uma goleada histórica. Um dos momentos mais esperados por mim nessa Copa começou a ser desenhado neste jogo: Ronaldo igualou o recorde de Gerd Müller marcando um golaço de fora da área. A partir desse jogo surgiu o grito de guerra mais ouvido na Alemanha até as quartas-de-final: IH FUDEU, O RONALDO EMAGRECEU!! Na saída do estádio, encontrei o Maurício e fomos tomar a cerveja da vitória (que aliás foi a única cerveja ruim que tomei em toda a Alemanha). Na barraquinha encontramos dois franceses que ainda estavam encolhidos na humildade, já que a França nem tinha se classificado ainda e o Zidane estava suspenso pro último jogo. Falei pra eles que queria a França na final pra ver a despedida do Zizou e o cara riu da minha cara, disse que ele já tinha feito a despedida porque a França ia sair na 1a. fase, que o time era de velhos e tudo mais... ele devia ter acreditado em mim, o Zizou foi até a final.
Agora passado o jogo meu desafio era encontrar os figuras. Não sei como eles conseguiram me mandar uma mensagem pro celular. Estávamos mesmo com sorte naquele dia e depois de dar umas voltas no ginásio próximo ao estádio conseguimos encontrá-los e seguimos todos pra Fan Fest (eu, Maurício, Mirela, Zadá, Véião e Faggi). Aí o mais legal foi como eles conseguiram me mandar a msg: encontraram 2 brasileiras que moram na Alemanha na Fan Fest e pediram o celular emprestado em troca de cervejas!!!! A gente realmente sabe como se virar, ficamos todos orgulhosos da nossa atuação nesse dia.
Ficamos nas adjacências da Fan Fest curtindo com a galera e o mini-trio, tomando cerveja e comendo mini-pizza. Nesse dia infelizmente nos despedimos do Zadá, e brindamos por isso com certeza! Já era altas madrugas e precisávamos voltar para Hagen, que não era muito perto. Aí nossa sorte finalmente terminou. Fomos pra estação de metrô da Fan Fest e descobrimos que não tinha mais metrô pra estação central. Tivemos que dar uma caminhada de uns 30min num frio desgraçado, mas beleza. Chegamos na estação e pegamos o trem da madruga (ajudados por staff brasileiro, que ficou de plantão até a madrugada na estação) rumo a Hagen. No trem, só figuras bizarras: bêbados, pessoal dormindo, pessoas com cara de bandido, bêbados, possíveis drogados e bêbados. Chegamos a Hagen e pegamos um táxi para o albergue. Dia seguinte vamos pra Dusseldorf pegar um avião para a longínqua Copenhagen, na Dinamarca!!!